quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Jogatina

Esta semana o fato mais relevante foi o aprendizado das regras de um jogo. Foi por acaso, Mariah me chamou para brincar e apareceu com um dominó de baralho que veio como brinde de uma rede de fast food. É um baralho, mas no lugar de naipes temos um dominó.

Para jogar é preciso conhecer as regras e eu listei-as. Repetia as regras antes de cada início de uma nova partida:

- As cartas com as regras não entram na brincadeira
- Embaralhamos as cartas
- São sete cartas para mim
- São sete cartas para você
- O resto você coloca no banco
- Cada carta tem que encaixar numa igual
- Se não tiver a carta, pegue no banco até ter uma carta que sirva
- Ganha quem ficar sem cartas na mão primeiro

E fomos jogando umas oito partidas. A medida que ela aprendia o jogo e aplicava as regras ela ficava mais empolgada. A mãe chegou lá pela sexta partida.

- Mãe, eu estou chorando, mas é de alegria!

Citei novas regras a medida que os problemas surgiam, como quando o jogo não tinha mais solução e ganhava quem tinha menos cartas na mão.

Ontem Mariah chamou a mãe para brincar de dominó de baralho:

- As regras não entram no jogo... vou embaralhar... são sete cartas para mim e sete cartas para você... o que sobrou, mãe, a gente coloca no banco... Eu começo. Tem um ou nada?




sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Tem certeza?

A velhice é algo engraçado: esquecemos de um monte de coisas recentes e lembramos outras muito antigas e marcantes. E distorcemos também. Muito mesmo. Os velhos adoram dizer que a escola de antigamente era boa e que a atual é um excremento fedorento. Ainda bem que o IBGE faz o favor de colocar dados de todos os censos em PDF para qualquer um consultar.



O último velho que soltou esta pérola tem mais de 60 anos. Então ele é dos anos 50. Como era a escola nos anos 60, na época que ele estudou? Aqui você tem o resultado do censo de 1960. São dados oficiais do governo brasileiro. A página 59 do PDF nos mostra que moravam no Brasil varonil 58.997.981 habitantes com mais de 5 anos e 27.578.971 eram analfabetos. Quase metade da população. Só isso já dá para afirmar que a escola no Brasil de 1960 era muito pior do que a de 2012 pelo simples fato que nenhuma escola é pior que a pior escola. O censo de 2010 nos mostra que o índice de analfabetos de 5 anos ou mais está em 10,8% e 9,6% entre os de 15 anos ou mais. Ainda uma vergonha, porém muito melhor que em 1960.



O velho fala estas besteiras por um processo psicológico de filtragem. Ele compara as escolas de excelência da época, como o colégio Pedro II, e mentalmente generaliza para todas as escolas públicas. O Pedro II sempre foi uma escola de elite e elite, por definição, é para poucos. O maior indicador que ocorreu o processo de filtragem é o segundo mito que ele propaga, de que a escola pública era melhor que a privada. Isto não faz sentido algum: por que diabos um pai e uma mãe colocariam o filho numa escola paga se ele teria uma escola melhor sem pagar nada?


O velho fala que na escola da época dele ensinavam francês e latim, mas eu nunca vi um velho realmente saber se comunicar em latim ou francês só com os conhecimentos da escola primária e secundária. Quem precisava realmente saber francês ou latim entrava em cursos de línguas ou faculdade de letras. Aliás, naquela época eram tão poucos com educação secundária que o ato de concluir este curso era garantia de um bom emprego. Quando eu entrei no curso técnico do CEFET-RJ, em 1987, estes velhos, que na época eram quase quarentões, profetizaram: "Terás bons empregos por toda a vida graças a este curso!" O velho também dizia que aprendia muita matemática, mas o seu comportamento econômico na época de inflação (a partir de 1980, quando ele já era adulto) mostrou que não sabe sequer o que é juro ou porcentagem.



Então vamos abrir esta Caixa de Pandora: os pais que moravam nos grandes centros urbanos colocavam os filhos em escolas privadas porque não existiam escolas públicas suficientes para todos. Em parte porque a sociedade nunca se interessou pela educação, em parte porque naquela época se faziam muitos filhos.



Existiam provas para entrar nas escolas públicas e, claro, cursos preparatórios para ajudar o candidato a passar, um verdadeiro vestibulinho. Ocorria um círculo virtuoso similar ao que acontece hoje nas universidades públicas de grife: os melhores preparados pelos cursos preparatórios passavam, o nível de ensino ficava mais alto, porém, na prática, só os extratos mais ricos da sociedade que eram admitidos.



Com uma forte demanda - os excluídos do sistema público -, os donos dos estabelecimentos de ensino privados  não precisavam fornecer um ensino de qualidade para ter muitos alunos. Isto ajudou a criar a lenda da escola privada deficiente. Mas uma escola privada ruim é melhor que nenhuma escola  pública. Os que moravam em áreas rurais em muitos casos não tinham opção nenhuma, o que explica o nível de analfabetismo historicamente alto nestas regiões.



O que mudou nesses 60 anos? O acesso a escola se democratizou, mas ainda existem escolas públicas de elite, o nível de ensino não é homogêneo. Ocorreu uma inversão parcial; as classes mais ricas migraram para as escolas privadas, mas continuam usufruindo das melhores escolas públicas, principalmente na educação superior (graduação e pós-graduação). Os pais, alunos e professores não acreditam como antigamente na escola e na educação como duas poderosas ferramentas de ascenção social.

A opção do governo de colocar todas as crianças na escola foi melhor que melhorar as escolas existentes? Sim, pois, como disse, uma escola ruim é melhor que nenhuma escola. O aumento das vagas e o movimento de tentar colocar todas as crianças na escola foi o correto naquele momento. O próximo passo é melhorar as escolas já existentes e aproveitar que as pessoas estão fazendo menos filhos para diminuir o número de alunos por classe, que em alguns casos ultrapassa de quarenta e torna inviável a realização de um bom trabalho. Fazer a escola melhorar é o passo mais difícil porque é um problema complexo que exige um esforço de todo mundo, inclusive dos professores, e de longo prazo, que o brasileiro tradicionalmente odeia.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

De filho para marido

Mariah adora brincar comigo. Basta eu chegar do trabalho para eu receber o convite. Raros são os dias que não brincamos nem um pouquinho de noite.


Quero ser um pai presente, então o que eu posso fazer no momento é brincar com ela. No futuro eu terei que migrar da brincadeira para o estudo, mas por hora Mariah só tem que brincar, ser criança e aprender por meio das atividades lúdicas.


A brincadeira sempre se repete. Ela é a mãe, a médica ou a professora e eu sou o filho, o paciente (pelo amor de Deus Pai, parem de chamar paciente de "cliente") ou o aluno. A relação é clara: há uma inversão nos papéis que ela sempre atua na vida real e ela quer, pelo menos nestes momentos, ser a superior hierárquica, ser o topo da cadeia alimentar. Alga de dia, atum de noite.

Os nomes das brincadeiras também são engraçados. A brincadeira que ela é a mãe ela chama de "Mãe & filho", a da médica, de "Doutora Eliana" - Eliana é o nome da pediatra - e a que ela é a professora, simplesmente "Escola".


Nas últimas semanas esta doce rotina mudou um pouco. Ela não quer mais que eu seja o filho da brincadeira Mãe & Filho: ela agora quer que eu seja o esposo e a boneca é a filha. A reprodução da vida da Luiza é cristalina e hoje de manhã demos ótimas gargalhadas com ela imitando na cama os exercícios de hidroginástica.

Não sei qual foi o causador desta mudança sutil, porém importante. Pode ser que ela agora esteja sedimentando o conceito de núcleo familiar e os papéis de casa um. No fundo, é apenas uma brincadeira, mas está me deixando muito pensativo e surpreso.

Dizem que o pai é o primeiro amor de toda a mulher e o meu bebê está crescendo.

sábado, 8 de setembro de 2012

Alguém tem que ceder

Tem coisas que só acontecem comigo e com a Luiza. No final de 2000 tivemos um lindo casamento e ficamos absolutamente duros. Orçamentos de um pobre técnico e uma pobre terceirizada de um jornal completamente comprometidos. A lua de mel foi adiada um ano, jogada no cantinho do final de 2001.

O primeiro ano de um casamento é quase sempre o Diabo ralado. É adaptação pura e a pratica de ceder em coisas que você até achava fundamental (tem que) vira(r) rotina. No final de 2001 já estávamos cansados, por precisar de férias, e adaptados um ao outro. E Luiza cedeu: fomos para a Serra Gaúcha num carro velho, no nosso tanque de guerra vermelho. O roteiro foi Rio de Janeiro / São Paulo / Curitiba / Blumenau / Nova Petrópolis. A volta prevista seria Nova Petrópolis / Curitiba / Rio de Janeiro.

Na primeira parada, ficamos 3 ou 4 dias. Antes de pegar a estrada para Curitiba, vi o nível da água do radiador, só que deixei a tampa do radiador em cima do motor e a perdi. Me dei conta logo depois, mas não achei a tampa. Deixamos o carro num posto e catamos uma loja de peças, mas parece que a tampa que nos venderam ou não era para o modelo ou não estava em boas condições, perdendo sempre água. Eu fiquei o resto da viagem acompanhando a temperatura do motor porque ela me fornecia uma boa noção de quando tinha que parar num posto para completar o nível. Não me pergunte o motivo de eu não ter comprado uma outra tampa original em Curitiba.

Depois de 4 dias em Curitiba seguimos para Blumenau. Era início de dezembro e a cidade estava vazia. Os moradores falavam da loucura dos dias de outubro, quando hordas de paulistas invadiam a cidade para beber cerveja. Aprendi a amar marrecos recheados com repolho roxo. O engraçado é que a gente se sentiu muito mal, muito estranho na cidade. Foi uma coisa espiritual mesmo, embora todos nos tenham nos tratado muito bem e seja uma cidade bastante turística. Totalmente incomum conosco. A Luiza também sentiu, mas só comentou quando eu toquei no assunto, já na volta para casa. Não lembro de passarmos por algo parecido em nenhuma outra cidade que conhecemos. Mais uns 2 ou 3 dias.

Depois de Blumenau longas horas até chegar à Serra Gaúcha. A cidade de Nova Petrópolis é linda, mais calma e bem mais barata que Gramado e ficava relativamente perto desta, não mais que uns 30km. Ficamos uns 10 dias e passamos o Natal lá.

A prova irrefutável que a Fiat Uno esteve na Serra Gaúcha


Na volta já estávamos cansados e decidimos tentar fazer em dois dias. No primeiro dia, como previsto, chegamos já no início da noite em Curitiba. Pernoitamos e saímos no final da manhã do dia seguinte. Ainda era claro quando passamos por São Paulo e pegamos a Rodovia Presidente Dutra. Só que um pouco antes de Aparecida caiu um temporal fortíssimo na estrada. E eu querendo chegar logo em casa e forçando a barra. Não dava mem para ver o que se passava uns 15m a frente e cada caminhão era uma cachoeira jogada no para-brisa. Decidimos entrar na cidade e estacionar no pátio da catedral para esperar a chuva passar. Depois de alguns minutos ela diminuiu e voltamos para o carro. Só que logo depois o temporal voltou e já era de tarde, acho que umas 15h ou 16h. Pelas minhas contas me notei que a gente iria passar por aquele trecho maldito da Serra das Araras no escuro. Então eu cedi e pernoitamos em Resende, já no estado do Rio de Janeiro.

De manhã pegamos rapidamente o caminho e chegamos em casa antes do almoço. Os cristais de Blumenau não quebraram na viagem, mas eu tinha me esquecido de alinhar o carro antes e perdi os dois pneus dianteiros por estarem muito desgastados por dentro. Ah, o excesso de calor me custou todas as borrachas da parte de refrigeração do motor. E a tampa do radiador, claro.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Em Oz, o Leão é gay

"Convidado para realizar um teste, Lucio Mauro Filho ganhou o papel do Leão, no primeiro musical de sua carreira. A pedido de Charles e Claudio, ele reforça as características gays do personagem. Situações que estavam no roteiro do filme mas não chegaram à tela foram incorporadas ao espetáculo, como o momento em que o Leão se senta no cilindro de óleo do Homem de Lata e não percebe." (http://oglobo.globo.com/cultura/superproducao-de-9-milhoes-leva-ao-palco-os-mitos-de-magico-de-oz-5097893)

Domingo passado, 02-09-2012, a família Trololó foi assistir à peça "O Mágico de Oz". A dupla Möeler e Botelho virou sinônimo de espetáculos caros, mas de qualidade. São os queridinhos da mídia: até a rigorosa Bárbara Heliodora elogiou o trabalho.




De fato, é tudo muito bem feito, com figurinos e cenários lindíssimos. Mariah nem piscava os olhos. Até entrar o Leão, meus únicos poréns eram que eu eventualmente não entendia as falas de alguns atores. Só os homens, porque as atrizes estavam com uma dicção muito boa. E a Maria Clara Gueiros achando que ainda estava atuando no Zorra Total e inserindo cacos desnecessários e que só tiravam a concentração. O público foi ao delírio quando a velha mal humorada interpretada por ela disse que tinha que sair pois estava na hora da aula de Pilates.



Até que entrou em cena o Leão.

O Leão, nesta peça, era gay.



Então vamos por partes. Primeiro, não é homofobia da minha parte. Não tenho nada contra qualquer preferência ou orientação sexual. O problema é que eles inseriram uma temática sexual que não existia na história original. Qual finalidade? O riso fácil porque os gays caricatos são supostamente engraçados? Se for, não há inovação nenhuma, porque o Costinha usou isto ad nauseum na clássica série de discos O Peru da Festa nos anos 80. Ou será que foi para compensar o fraco desempenho do ator Lúcio Mauro Filho? Ou foi ainda para dar um toque brasileiro e criar uma versão sexual? Arnaldo Jabor deve ter uma teoria sobre isso. A minha é que o mundo está virando uma grande Zorra Total na Praça é Nossa.



Segundo, por ter só 4 anos e por não ser estimulada com temática sexual, para a minha alegria a filhota não entendeu. Porém estavam na plateia dezenas de crianças com mais idade que ela. O que passou naquelas cabecinhas? Na história, cada um dos companheiros de viagem de Dorothy tem uma demanda. O Espantalho deseja um cérebro, o Homem de Lata, um coração e o Leão, coragem. E o Leão fala diversas vezes que vai pedir ao Mágico de Oz para ser corajoso. Será que as crianças vão interpretar uma eventual falta de coragem de um coleguinha de escola ou de uma prima como homossexualidade? Uma coisa não tem nada com a outra. Aliás, ainda é preciso muita coragem para declarar publicamente a homossexualidade.

Terceiro, a obra-prima de L. Fank Baum é ao mesmo tempo pioneira por ser de auto-ajuda, belíssima para uma obra infantil e ao mesmo tempo uma incrível metáfora política. Ele jamais colocaria algo sexual num livro infantil num país tão puritano como os Estados Unidos. Ainda hoje, na Flórida, prostituir-se e contratar os serviços de prostituição é crime e dá cadeia. Imagina se esta peça fosse encenada deste jeito lá: pararia todo mundo na sala do Xerife.

Mas sou eu que estou ficando um velho chato, homófobo e reacionário. Ninguém ligou para isso. Só eu e a minha esposa. O riso explodiu na plateia quando o Leão tirou o borrifador de óleo do Homem de Lata de dentro das nádegas. Mariah, curiosa, perguntou: "Mamãe, o que houve?"